Ser Sonhador e outros sonhos

Dizem as más e as boas línguas e as línguas nem boas nem más que esses homens de camisas de uma cor só e esses outros engravatados e mais aqueles que já viajam para o espaço como quem viaja de carro para a cidade natal são os grandes sonhadores e revolucionários do mundo. Que eles são ambiciosos eu não discordo, mas os grandes sonhadores… eu não diria, tampouco escreveria. Sonhar com viagem espacial e grandes máquinas de dominação do universo chega a ser um clichê, os filmes de aventura já fazem isso por nós.

Ah, antes que você se pergunte onde quero chegar com essa divagação, lhe peço um pouco de calma e que confie nas palavras. Falo de sonhos e de sonhadores, porque me recordo bem, não de um sonho, geralmente os esqueço, mas de um lugar que costumo ir e das pessoas que lá habitam. Certo dia adentrei num desses prédios que cheira a curiosidade, livros didáticos e papeis coloridos, desses lugares que pouco a pouco te cativam e que, quando se dá conta, você está completamente imerso e é tão parte de lá quanto o piso ou as paredes.
Bem, foi em um lugar como esse que conheci aqueles que considero os verdadeiros sonhadores e revolucionários do mundo. Nomeavam-se “Professores”. Por vezes, escutava-se ecoando pelos corredores um “Tio! Tia!”, a forma prática e também muito afetuosa que remonta a época em que “professor” era uma palavra complexa, complexamente fascinante. É que “Professor” é uma palavra interessantíssima, perceba: a sua sonoridade é genuinamente poética, é bonita de se falar, é firme, dotada de uma força particular, mesmo quando dita da maneira mais suave. “P R O F E S S O R”. Mas, o cerne da verdadeira magia está em quem faz dessa poesia toda substantivo próprio. E escutava dizerem “Eu sou Professor”. E a cada “ser” e a cada “professor” atribuíam-se significados à palavra.

Perante tanto misticismo, eu observava pelas portas e pelas janelas, pelos copos de café, pelas canetas – haja caneta – , pelas mãos manchadas por pincel – não há apagador que as salve desse destino – pelas pilhas de livros e de papeis, observava atentamente uma profusão de sonhos emergindo de todos os cantos por onde os Professores passavam. Sonhavam grandemente. Afinal, fazer parte ativa do sonho coletivo de uma educação brasileira melhor não é o maior dos sonhos? Tanto é o maior deles que dividiam de forma indiscriminada com todos ao seu redor, como se fosse infinito. Mas, fato curioso: eles não eram Deus, o sonho nem era pão, nem peixe, mas multiplicavase a cada vez que se repartia um pouco e, então, era infinito. De repente, o onírico se convertia no real e o mundo inteiro se movimentava junto. Movimento é revolução. Os inúmeros sonhos agitando-se em todos os estados da matéria é revolução.

Enquanto houver Professor, não há crise no Mundo dos Sonhos.

E foi assim, sendo tomada pelos sonhos que se construíam naquele prédio, que brotavam entre as linhas dos cadernos, que despertava com o som estridente da campa, pelo gosto encantado dos sonhos que repartiam comigo, foi dessa forma que me vi em estado de êxtase profundo, admirando eternamente os sonhadores, sonhando em ser sonhador, escrevendo cada palavra como um sonho bom, desses que a gente é grato pelo sabor de tê-lo sonhado. Agora, antes que a última campa bata, e as portas se abram e as pessoas saiam e o mundo se acabe, usarei esse meu último segundo para mais três palavras necessárias:
Professores, muito obrigada.

Elara A. Moretz-Sohn