Instituto Dom Barreto
XLI Gincana Cultural “Teresina, Meu Amor”
Apresentação do Tema
O sertão está em toda parte
“O sertão está em toda parte”, disse Rosa. Há sertões que racham sob o sol de setembro e que verdejam na invernada, e há sertões escondidos e luminosos dentro de nós. Há sertões de pedra, de poeira e mandacaru. Sertões de silêncio. Sertões de medos, sertões de solidão. Há sertões de fé. Sertões de aboio e sossego. Sertões de fome e de resistência. Sertões que secam rios e sertões que inventam água. Sertões que expulsam. Sertões que acolhem. E se Rosa disse que o sertão está em toda parte é por que ele nunca foi apenas geografia, sertão é linguagem.
O sertão é o “não sei quê[1]” de um verso de cordel vendido na feira. É o couro da sanfona abrindo no peito do mundo. É a rabeca chorando baixinho. É o barro rachado e a procissão. É a cantoria atravessando a madrugada na batida do triângulo e da zabumba “até pegar o sol com a mão”. É latumia com choro e ranger de dentes, é incelências para ajudar os defuntos a fazer a travessia “Maria, vai na frente”. É o povo que aprende a florescer mesmo quando tudo parece impossível.
Venha Rosa. Venha, entre nesta quadra todo vestido de sentidos e sonhos e, montado no seu cavalo de palavras, nos ensine que para bem olhar para fora, primeiro é preciso olhar para dentro. Venha trazendo consigo Diadorim, Riobaldo, Hermógenes, Zé Bebeto, Miguilim, Terez, Nahum, Joaozinho Bem Bem, Mula-Marmela, Vau da Sarapalha... e quem mais quiser. Venha para nos lembrar, mais uma vez, como acontece em cada edição desta Gincana que “mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende”.
Que entre também o senhor Euclides da Cunha, trazendo debaixo do braço seu livro áspero, duro, contraditório e monumental que busca explicar o Brasil olhando para Canudos e fala de um país inteiro ferido entre o litoral e o interior. Foi também desta obra que saiu, para ganhar o mundo, uma imagem que atravessou tempos e espaços: “O sertanejo é, antes de tudo, um forte” (CUNHA, 1902). Porque o sertão é conflito e desigualdade. Violência e beleza. Latifúndio e chão de terra miúda, de severinos retirantes, invisíveis ou indistinguíveis, embora carreguem a história inteira nas costas.
Venha Ariano, estávamos ansiosos pela sua participação armorial nesta festa. Venha trajado com seu realismo esperançoso e calçado, como de praxe, com sua defesa apaixonada da cultura brasileira, sertaneja, brejeira. Venha com a sabedoria galhofeira dos pobres nordestinos e com o sonho da Pedra do Reino e seus cavaleiros carregando estandartes abrilhantados de purpurina e coragem. Venha com Chicó e João Grilo enganando poderosos e fugindo da fome e da morte enquanto uns gatos comem bife passado na manteiga. Venha com a curiola do seu sertão, esta gente que não se entrega e, ao contrário do que dizem, também é festa e beleza. Temos, à espera de vocês, uma mesa simples forrada por um pano bordado com potes de barro e uma chaleira de ágata meio desbeiçada, mas limpinha, com café quente coado no pano. Tome assento e pegue sua caneca, uma beirinha da canjica ou uma pamonha na palha, mas se for de sua preferência, tome de uma taiada de bolo de milho com queijo de manteiga ou um pé de moleque salpicado de castanha ou, se preferir, um saco de peta. Só para citar algumas das delícias destas brenhas onde o mais simples e corriqueiro é transformado em arte. Sim, esta é a beleza dos contrastes que combina perfeitamente com uma boa prosa e com a poesia improvisada no alpendre. Umas artes que desafiam a dureza do mundo e é capaz de recriar profundamente nossas vidas Severinas com base em uma sabedoria tão antiga quanto nossa: viver não é acumular, mas criar sentido.
Que entre para nos fazer companhia o poeta que escreve com a ponta da faca, mas diz tanto da esperança: João Cabral de Melo Neto e Severino, personagem do seu “Morte e vida Severina”. Inscrito, pelo próprio poeta, na tradição do cordel, este poema ultrapassa as fronteiras impostas pelos escaninhos tão comuns quanto limitados das artes eruditas versus populares, dos lugares dados e da indeterminação histórica. Um Poema para ser dito em voz alta, ou melhor, cantado, Morte e vida Severina é ao mesmo tempo erudito, sofisticado e “para todos”. Nele encontraremos a ousadia de rejeitando caminhos fáceis e planos do que já se apresenta consagrado, criar um severino - e um desfecho - que embora possa ser confundido como outros tantos severinos, é um severino único, senhor do seu próprio destino.
Sim, o sertão com suas durezas e suas desigualdades produziu, e produz muita morte e muita dor, mas também seu contraponto: incríveis formas de beleza. A música que nasce da seca e da exclusão. O cordel que nasce da fome e da raiva, da denúncia e do sonho. A dança que nasce da espera. A fé que nasce do desamparo. A comunidade que nasce da partilha de tudo isso. E há em cada um destes movimentos uma força imensa, por que reinventar a vida é também uma forma de resistência. Sim, o sertão é invenção. É esperteza. É beleza. É teatro de feira. É romanceiro popular. É cavalo-marinho. É viola e é sanfona. É movimento armorial. É mangue beat.
Que entrem também Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Sivuca, Waldonys, Flávio José, Targino Gondim, Adelson Viana, Oswaldinho do Acordeon, Dogival Dantas, Gilberto Gil, Elomar, Vital Farias, Xangai e o Quinteto Violado. Podem chegar Alceu, Jorge de Altino, Geraldo Azevedo, Santana, João de Barros e Ceceu. Marines, Elba Ramalho, Silvana Aquino, Amelinha, Lucy Alves, Juliana Linhares e quem mais vier... Se achegue João Gomes, Maestrinho, Tarcísio do Acordeon...
Que venham as poetas slams nordestinas, os coletivos culturais das periferias, os novos cordelistas da internet, os cineastas do interior, os artistas independentes que reinventam diariamente as linguagens do sertão. E que venham também os sertões do Douglas Machado. Do poeta Jessie Quirino... Que venham os Sertões da memória. Das estradas poeirentas. Dos cemitérios, das feiras, dos cantadores e das travessias humanas. Que venham Sebastião Salgado, Paulo Barros, Chico Rasta, Aureliano Müller, Valdeci Ribeiro, Elias Oliveira, Adriano Mendes Anselmo Alves, Araquém Alcantra, Juliana Pesqueira, Marcela Bonfim, Dandara, Roberta Aline, Camila Almeida, Paulo Miguel e Adriano R. Kirikara porque os sertões também se contam e se recontam em imagens. Também sobrevivem e são reinventados em palavras e textos. Podem entrar Jessie Quirino, Durval Muniz de Albuquerque Jr.
Sim, porque os sertões continuam criando, cantando e inventando modas. Continuam cantando. Continuam mudando de forma. Continuam atravessando, alimentando as suas raízes e ramificando tantas outras novas. Sim, o sertão está no streaming, no Tik Tok, no cinema contemporâneo. Nas batalhas de rima. Nos festivais independentes. Nos podcasts. Nas novas formas de contar histórias.
Mininos, botem reparo: Guimarães Rosa, Raquel de Queirós, Luiz Gonzaga e Gonzaguinha, Euclides da Cunha, Patativa do Assaré e todos os outros, estão com um sorrisinho no canto da boca ao perceber que os sertões brasileiros seguem exatamente assim: inacabados, mutáveis, vivos. Que venham, então, os aboios, os cocos, os repentes, as bandas de pífano. Os folguedos, as cavalhadas, as festas do Divino. Que venham os tambores. Os benditos. As romarias. Que venham os cordéis.
Podem chegar os muitos Brasis que vivem dentro dos sertões. Sertões urbanos e rurais. Que venham os Sertões antigos e contemporâneos. Sertões profundamente tecnológicos e sertões que permanecem cuidando e reinventando suas tradições. Sertões de retirada e sertões de permanência. Sertões de tradição e de reinvenção. Ah, são tantos os nossos sertões a reinventar a água, a reinventar as tradicionais comidas. A reinventar a linguagem. A reinventar o cotidiano. A reinventar o futuro. Mas, não esqueçam, há o sertão indígena, anterior às cercas. Há o sertão quilombola. Há o sertão ribeirinho. Há o sertão das quebradeiras de coco. Há o sertão das benzedeiras. Há o sertão das mulheres que carregam água na cabeça e o mundo inteiro no peito. Porque os sertões brasileiros não são feitos apenas de paisagens. São feitos de gente que insiste. De gente que inventa beleza. De gente que transforma escassez em criação e memória em permanência.
Imaginem também se os nossos Parnaíba e Poti resolvessem contar histórias. Quantos sertões passariam por suas águas? Quantas famílias chegaram aqui trazendo na mala o barro vermelho do interior, a lembrança das secas, os santos nas procissões, as receitas das avós, os aboios, os medos e as esperanças? Teresina talvez seja uma das cidades brasileiras que melhor traduzem a ideia de sertões no plural. Cidade entre rios, sim, mas profundamente atravessada pelos interiores do Piauí e do Nordeste. Cidade feita de chegadas. De retiradas. De reencontros. Cidade construída por vaqueiros, comerciantes, lavadeiras, professores, migrantes, artistas, feirantes, estudantes, rezadeiras e trabalhadores vindos de tantos cantos diferentes. Há sertões inteiros vivendo em Teresina. Nos mercados. Nas feiras. Nas conversas de calçada ao cair da tarde. No sotaque que mistura cidades, povoados e travessias. No cheiro de cajuína. Na panela de capote. No repente improvisado. Na religiosidade popular. Na invenção cotidiana de quem aprende a sobreviver ao calor, às distâncias e às dificuldades sem perder a capacidade de acolher.
Teresina também reinventou o sertão. Transformou encontros em cultura. Transformou deslocamentos em pertencimento. Transformou memória em cidade. E talvez seja por isso que esta Gincana Cultural aconteça aqui com tanto sentido. Porque Teresina sabe reconhecer os sertões. Ela os abriga. Ela os escuta. Ela os mistura. Ela os transforma em música, literatura, humor, resistência e afeto. Nesta nossa Cidade, o sertão nunca foi apenas ausência. Foi também criação. Foi comunidade. Foi beleza construída, apesar de tudo.
E talvez seja exatamente isso que os sertões brasileiros continuam ensinando: que mesmo nas paisagens mais duras, a vida encontra maneiras extraordinárias de florescer. Porque os sertões não pertencem ao passado. Eles continuam perguntando ao Brasil: quem tem direito à água? quem tem direito à terra? quem é ouvido? quem permanece invisível? Por tudo isso, a grande pergunta desta XLI Gincana Cultural seja justamente esta: que sertões existem dentro de nós? Quais paisagens nos constituem? Quais vozes nos atravessam? Que Brasil queremos recriar?
Por isso, queridos gincaneiros, leiam. Escutem. Dancem. Pesquisem. Cantem. Inventem. Percorram os sertões da literatura, da música, da oralidade, da memória, do cinema, da fotografia, da religiosidade, da luta popular e da imaginação brasileira. Porque talvez os sertões sejam isso: um país inteiro tentando aprender a sobreviver sem perder a capacidade de sonhar. E como ensinou Guimarães Rosa, “o mais importante e bonito do mundo é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas” (ROSA, 1956).
Que esta 41° Gincana Teresina, meu amor, nos possibilite continuar sendo feitos pelos sertões. E com eles.
[1] O apresentador, Marcelo Tas, pergunta para o escritor Itamar Viera o que é o “Brasil Profundo”. Vieira admite que não sabe explicar muito bem, mas diz que gosta muito termo pela “carga enigmática” que existe sobre ele. “O Brasil não é aquilo que passa na TV ou os lugares que são exaltados. São as vidas e as pessoas que ainda estão invisíveis. Todas elas têm uma potência de vida criativa, que podem explicar esse país”, diz o escritor. Um dos melhores lugares para conhecer o Brasil Profundo é o campo, pois é um espaço onde coabitam a tecnologia do agro e uma pobreza muito grande. Entrevista feita por Marcelo Tas no “Provoca” com Itamar Viera, autor do premiadíssimo “Torto Arado”
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